Entrevista: Victor Silva, da Colatte, sobre tecnologia sem tecniquês e software fora dos grandes centros

Victor Silva, CEO da Colatte, software house de Cuiabá, fala sobre proximidade com o cliente, capricho independente do tamanho do projeto, o mercado fora dos grandes centros e o uso de IA sem alarde.

Equipe Softdex··9 min de leitura
Entrevista: Victor Silva, da Colatte, sobre tecnologia sem tecniquês e software fora dos grandes centros

A série de entrevistas da Softdex ouve os líderes das software houses brasileiras sobre como elas nascem, o que as diferencia e para onde o setor está indo. Depois de conversar com empresas de grande porte, esta edição olha para outro perfil que sustenta o mercado: a boutique. O convidado é Victor Silva, CEO da Colatte, software house de Cuiabá (MT) que nasceu da junção de "código" com "latte" e atende de marmorarias a clínicas, além de manter produtos próprios como o app open source Crema. Ele fala sobre relação próxima com o cliente, tecnologia sem tecniquês e o espaço que existe fora dos grandes centros. O perfil da Colatte na Softdex reúne especialidades, stack e contato.

O que motivou você a empreender abrindo uma software house?

Foi uma mistura de vontade e incômodo. A vontade era ter algo que me representasse formalmente: uma identidade de empresa separada da minha pessoa, com nome e jeito próprios. O incômodo veio de anos observando como muita empresa de tecnologia se relaciona com o cliente. Entrega abaixo do combinado, some depois do pagamento e trata quem contratou como um número. Eu acreditava que dava pra fazer diferente: entregar um serviço de qualidade e justo, e ainda assim manter uma relação próxima, de conversa.

O nome ajuda a explicar isso. Colatte é "código" com "latte". Programar é o centro do trabalho, e o café acompanha boa parte do meu dia. A ideia é que a tecnologia seja algo próximo, que faz parte da rotina de quem usa, e não uma coisa fria que fica na sala de servidores.

O primeiro cliente foi a Marmoraria Macapá, e esse projeto resume por que eu abri a empresa. Era um site institucional que também precisava funcionar como o catálogo principal deles. Em escopo, é simples. Mas marmoraria pede sofisticação: a pedra precisa aparecer na tela com a mesma presença que tem ao vivo, e o site precisa transmitir isso antes mesmo de mostrar os produtos. Dois anos depois, o site continua no ar, e são eles mesmos que alimentam e editam o catálogo, sem depender de mim pra nada do dia a dia. Pra mim, é assim que se mede um projeto bem entregue.

O que você acredita ser o principal diferencial da sua software house?

São duas coisas que andam juntas. A primeira é que o capricho não muda conforme o tamanho do projeto. O exemplo que eu mais gosto de dar nem foi pra cliente: o Crema, um app gratuito e de código aberto pra macOS que lancei faz uns dois meses. Ninguém ia pagar por ele, e mesmo assim ele saiu com o mesmo acabamento de um projeto grande, porque na minha cabeça essa distinção não existe. Sem nenhum anúncio, só no boca a boca, ele já passou de 500 downloads. Um projeto aberto chega em muita gente que eu nunca atenderia como cliente, e isso por si só já vale.

A segunda é a proximidade. Eu falo direto com o dono do negócio, sem tecniquês, e ele acompanha o projeto sabendo o que está sendo feito e por quê. O que eu mais quero é que o cliente descreva a Colatte como uma empresa confiável, que entrega e que respeita quem contratou. Software sob medida e escalável é o que eu vendo, mas confiança é o que faz o cliente voltar.

Como você enxerga o mercado de software houses hoje?

Vejo um mercado grande e ainda muito desigual. Uma parte dele vende tecnologia como se fosse o futuro chegando, com visual azul, neon e promessa maior do que a entrega. Pra quem tem uma loja, uma clínica ou uma marmoraria, esse discurso assusta mais do que convence. Eu prefiro a visão oposta: tecnologia é coisa do dia a dia, e o papel dela é facilitar a vida de quem trabalha.

Ao mesmo tempo, existe uma quantidade enorme de negócios bons rodando em planilha, com o processo inteiro na cabeça do dono, se perguntando se precisam mesmo de um sistema. Precisam, e em geral descobrem isso quando a operação cresce e a planilha não acompanha. É justamente o tipo de projeto que mais chega pra mim: alguém querendo tirar um processo do improviso. Então eu enxergo espaço de sobra, principalmente fora dos grandes centros. Mas é espaço pra quem entrega bem e continua disponível depois que o sistema entra em operação.

Falando em IA, qual é o papel da software house nesse novo contexto de mercado?

Entender o negócio do cliente. Uma software house lida com vários segmentos ao mesmo tempo, cada um com regras próprias e um jeito de operar que só faz sentido visto de dentro. O gargalo nunca foi escrever código. Sempre foi compreender o contexto direito antes de construir qualquer coisa, e é nessa etapa que a maioria dos projetos dá errado.

Com a IA, a parte de construir ficou rápida. Qualquer pessoa gera um sistema numa tarde. O que continua difícil é o que vem depois: o sistema aguentar o uso real da empresa por anos, com gente alimentando conteúdo todo dia, como acontece com o site da marmoraria. Pra chegar nesse ponto, alguém precisa entender o negócio antes de pedir qualquer linha de código, decidir o que vale a pena construir e ficar disponível quando o cliente precisar. Esse alguém continua sendo a software house. Se antes o valor estava em saber programar, agora está em saber ouvir e em assumir a responsabilidade pelo que foi entregue.

Como a sua empresa tem abordado o uso de IA?

Como uma ferramenta de trabalho, presente todos os dias e sem alarde. Onde ela mais me ajuda é no começo do projeto: mapear casos de uso e regras de negócio de um segmento que eu nunca tinha atendido. Uma marmoraria e uma clínica de fisioterapia funcionam de jeitos completamente diferentes, e a IA me ajuda a entrar em cada contexto com mais rapidez e menos suposição. Isso acelera o planejamento, e um bom planejamento é o que segura o resto do projeto.

Fora isso, ela entra no dia a dia como qualquer boa ferramenta de desenvolvimento: acelera o que é repetitivo e me deixa mais tempo pra conversa com o cliente e pra parte do trabalho que exige decisão. O que eu evito é usar IA pra parecer moderno. Se ela já me atrapalhou? Sinceramente, não lembro de uma vez. Mas o cliente não precisa saber qual ferramenta eu usei. Ele precisa de um sistema que funcione e de alguém que atenda quando ele ligar.

Como a Softdex tem ajudado a sua empresa?

A Softdex chegou faz pouco tempo, e eu já enxergo a relação como uma parceria de verdade. Uma software house de Cuiabá com esse perfil tem um desafio óbvio: ser encontrada por quem procura exatamente esse tipo de trabalho. Até aqui, a Colatte cresceu por indicação, e indicação tem alcance limitado.

O que a Softdex faz é colocar a Colatte na frente de empresas que já decidiram contratar e estão escolhendo com critério, comparando especialidade, porte e avaliação de clientes. Isso muda a conversa. Em vez de explicar por que alguém precisa de software, eu começo explicando como eu trabalho. E chega num momento bom: além dos projetos sob medida, a Colatte começa agora a vender produtos próprios, como o Brio, um sistema de gestão pra clínicas de fisioterapia, e ter um canal com visibilidade nacional faz diferença nessa fase. Ainda estamos no começo, sem avaliações na plataforma, mas a direção está certa. Gosto de estar num lugar que valoriza a mesma coisa que eu: entregar com qualidade e ter cliente que confirma isso.

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